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sábado, 20 de dezembro de 2014

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Cap 15 - 1,2,3 "A Princesa Roubada"


Capítulo XV.

Lua respirou fundo e adentrou a igreja.
E parou, horrorizada.
A igreja estava cheia. Com todas as cadeiras ocupadas, com mais de cem pessoas no total. A maioria sentando no lado do noivo na igreja.
Deveria ser uma formalidade pequena, privada.
Agora ela tinha mais de cem testemunhas do que estava para fazer. Ela teve náuseas por causa dos nervos a manhã toda. Agora ela tinha começado a tremer.
A música do órgão aumentou. Uma onda de antecipação passou pela reunião e cem rostos giraram na direção dela.
Ela queria sair em disparada.
“Vamos, mamãe”. O filho puxou a mão dela. Seu pequeno menino em seu terno formal parecia tão bonito, sério e determinado. Nicky estava conduzindo a noiva.
Mel, sua dama de honra de azul, avançou. “Lua, o que foi?”, ela sussurrou.
“Eu não posso fazer isto, não com todas estas pessoas lá”, Lua sussurrou de volta.
“Por que não? É a mesma coisa se há uma ou cem pessoas assistindo”, Nicky disse com voz sensata.
Lua tinha que rir. Desde jovens os homens já ficavam assim. Sendo racionais quando o problema era sentimental. Isso a acalmou. Ele tinha falado com a mesma voz paciente que a tinha explicado que o oeste era onde o sol se punha. Quando eles estavam de pé no mar à meia-noite.
“Meu filho sábio e maravilhoso”, ela disse e se curvou para beijar a testa dele. Ele se chateou virilmente e então dobrou a mão dela firmemente no seu antebraço e a levou pelo corredor.
Ele estava feliz por ela estar se casando com Arthur, ele disse a ela quando ela tocara pela primeira vez no assunto com ele. Ele pensou por alguns minutos e então declarou que o Sr. Aguiar seria um padrasto muito bom.
As palavras dele tinham-na chocado. Foi penoso para ela explicar que não o casamento não significava nada, que era apenas uma formalidade, um modo de parar a petição do Conde Anton. Como uma manobra de xadrez.
Nicky era muito bom em xadrez, e ela estava certa de que ele havia entendido o que ela estava tentando dizer a ele. Ele movimentou a cabeça seriamente durante toda a explicação cuidadosa, e pensou sobre isso por alguns momentos posteriormente. E então seu pequeno rosto se iluminou intensamente e ele deu sua decisão: aprovava.
Então aqui estava ela casando com Arthur Aguiar. Ele estava de pé no altar esperando por ela, alto, solene e incrivelmente lindo, devorando-a com os olhos; o tipo de homem que poderia roubar o coração de uma garota que não fosse cuidadosa.
Lua estava determinada a ser cuidadosa.
Ela olhou para os rostos da multidão à medida que passava.
Ao lado do noivo da igreja a única pessoa que ela reconhecia era o Sr. Nash Aguiar, que estava lá com um homem alto e sério. Ele olhava fixamente para ela com os olhos frios e avaliadores dos Aguiar; o irmão com quem Arthur estava brigado, o conde, sem nenhuma dúvida.
Ela estava curiosa quanto aos poucos que estavam sentados no lado da noiva, e enquanto ela passava pelos bancos da igreja eles giraram para olhá-la. Ela sentiu um bolo na garganta enquanto via os rostos. O Sr. Ramsey, Sr. Borges e Sr. Suede estavam juntos, os melhores amigos do noivo, reivindicando a noiva como parte de sua família. No banco atrás deles estavam de pé o Sr. e a Sra. Barrow, vestidos com a sua melhor roupa de domingo, a Sra. Barrow com um chapéu de palha magnífico luxuosamente adornado com flores. Ela sorriu radiante para Lua e então repentinamente caiu no choro. O Sr. Barrow apareceu com um lenço e o deu a ela, e a Sra. Barrow se debruçou contra ele e suspirou tempestuosamente para a noiva. O quão maravilhoso deveria ser ter um casamento assim, amar por toda a vida.
Uma mulher em um turbante purpúreo magnífico se girou: era Lady Gosforth, levando um lencinho de renda até os olhos e sorriu radiante para Lua. Ela parecia tão orgulhosa e feliz como se ela fosse a própria mãe de Lua.
Sentando com ela estava um grupo de senhoras, o círculo da Lady Gosforth com seus amigos íntimos. Ela reconheceu seus rostos. Ela os tinha encontrado algumas vezes nos últimos dias. Ela não conseguia nem se lembrar de seus nomes.
E ainda assim, aqui estavam, estas senhoras, os pilares da elite, que vinham para vê-la se casar, sentados do lado dela da igreja, e sorridentes, com olhos úmidos para a noiva como se ela não fosse uma estranha sem família, mas sim uma pessoa da própria família delas.
Lua conseguiu dar um sorriso embaçado de volta. Seus olhos estavam borrados com lágrimas. Tanta bondade… Tanta bondade…
E então eles estavam no final do corredor e ele esteve lá, Arthur Aguiar, com a mão estendida, observando-a, esperando para reivindicar sua mão.
O olhar dele acariciava-a, então ele olhou para o filho dela e deu a ele um aceno com a cabeça como uma pequena aprovação. O peito de Nicky se inchou orgulhosamente enquanto fazia uma reverência e andava de volta.
Mais lágrimas ardiam em suas pestanas. Arthur talvez fosse um padrasto muito bom. Mas poderia não ser também. No futuro ela, eventualmente, voltaria a Zindaria como mãe do príncipe. Ele tinha propriedade, amigos e família aqui.
Atrás dele estava seu irmão Harry, padrinho de casamento do noivo, parecendo melancólico. Ele tinha os olhos dos Aguiar, também, exceto que os dela eram cinza, como os do conde. Harry pegou o olhar de Nicky e piscou para ele. Lua sentiu uma enorme gratidão por estes homens ao aceitarem Nicky tão facilmente.
Arthur tomou a mão trêmula dela e eles avançaram para se casar. A mão dele estava morna e um pouco úmida. Ela olhou de relance para ele. Com certeza ele não estava nervoso também, estava?
“Meus queridos, estamos aqui reunidos…”
Os pensamentos dela flutuaram.
“Primeiro, foi ordenado a procriação de crianças…”
Crianças. Não haveria nenhuma criança nesta união. Um casamento no papel. Crianças no papel.
“Em segundo lugar, foi ordenado um remédio contra pecado, evitar fornicação…”
Ela olhou fixamente para a mão que segurava a dela muito firmemente, o dedo polegar grande roçando de um lado para outro através de sua pele.
Ela ouviu Arthur dizer seus votos, “…para ter e manter…  para amar e estimar…”
Ela não queria escutar. Votos no papel, falsas promessas.
E então era sua vez de repetir depois do ministro: “Eu, Lua Maria Blanco, recebo Arthur Aguiar, como meu legítimo esposo, para ter e manter, deste dia em diante, para melhor e para o pior, para a riqueza e para a pobreza, para a saúde e para a doença”, resmunga—“para amá-lo”, resmunga de novo—“até que a morte nos separe, de acordo com a santa vontade de Deus; isso eu prometo”.
O ministro olhou para ela e franziu o cenho. Ela tinha resmungado o ‘amar’ e ‘obedecer’ de forma que eles tinham ficado bastante ininteligíveis.
Ela deu a Arthur um olhar sentido. Os lábios dele estavam apertados. Ela o tinha advertido de que não iria prometer amar e obedecer. Ela levava suas promessas a sério. Mesmo que fossem votos em teoria, no papel.
Cumprir a promessa de amar um marido tinha partido seu coração uma vez; ela não iria fazer isto novamente. Especialmente não num casamento de manobra de xadrez.
Não era culpa dela que houvesse cem pessoas lá para vê-la envergonhar seu novo marido. Ela não pretendia que ninguém exceto Arthur e o ministro pudessem ouvi-la. Ela esperava que eles não estivessem; ela tinha falado todos seus votos com voz suave.
O ministro olhou para Arthur fazendo uma pergunta muda.
Ele deu uma sacudida concisa de cabeça, e o ministro deu um pequeno encolher de ombros e continuou. Ele terminou a formalidade depressa. Lua estava tão aliviada que já tinha quase se esquecido do “já pode beijar a noiva”.
Arthur girou na direção dela e por um longo momento a olhou fixamente com uma expressão estranha, intensa. Então ele a ergueu do chão e a beijou em cheio na boca, na frente de todo mundo. Foi um beijo orgulhoso, possessivo, uma reivindicação pública, uma promessa.
Isso a chocou, ser beijada assim, com a guarda tão baixa, com paixão, em uma igreja, na frente de cem testemunhas.
Deveria ser um casamento no papel.
Não deveria?

Depois do casamento, em um movimento que surpreendeu o noivo e também a noiva, todo mundo presente estava convidado para ir a Alverleigh House para um café da manhã de casamento—embora já fosse início da noite. Todo mundo exceto a noiva, o noivo e o padrinho do noivo, o irmão dele, Harry, sabiam disto. Lady Gosforth, o conde de Alverleigh e o irmão dele Nash Aguiar tinham organizado tudo. Juntos tinham conseguido atrair algumas das pessoas mais influentes em Londres para o casamento.
Nash explicou a Lua o porquê: as pessoas mais importantes podiam fazer pressão sobre o governo para negar a reivindicação do Conde Anton, assim seria o melhor.
O dia tinha estado cheio de surpresas e Lua estava resignada. Houve uma posse completa de sua pequena e privada formalidade e não havia nada que ela pudesse fazer. Além disso, era tudo pelo benefício de Nicky, então quem podia discutir ou resistir a tal generosidade maravilhosa?
Várias vezes ela se pegou desejando que tudo pudesse ser real. Ela pisou nesses pensamentos.
Thur e Harry estavam furiosos com o conde por ele ter assumido o comando de oferecer a recepção. “A típica arrogância arbitrária”, Thur fumegou para Nash. “Diga a ele que eu não serei patrocinado por ele e de forma nenhuma irei dançar conforme a sua música”.
“É um oferecimento de paz, Arthur”, Nash disse a ele. “Um pedido de desculpa de injustiças passadas”.
“Eu não preciso—”
“É uma declaração pública de suporte a sua esposa. Todo mundo na igreja estará lá para encontrar a princesa”.
Thur fechou a boca e encarou Nash. Maldito diplomata escorregadio. Ele tinha dito a única coisa que poderia parar Thur de desprezar o conde publicamente.
Ele olhou de relance para Harry, que encolheu os ombros. “Sem escolha, Thur. Você sabe disto. Se não pode vencer, junte-se a eles”. Ele girou para Nash e disse, “Mas isso não significa que eu tenha que ir”.
Thur o agarrou firme pelo cotovelo. “Oh sim, você vai, que droga, Harry. Se eu tenho que engolir meu orgulho, então você também vai”.
Harry fez um movimento para se afastar, mas encontrou os olhos de Thur e suspirou, aceitando seu destino.

Já era bastante tarde quando os últimos dos convidados do casamento deixaram Alverleigh House. Os empregados limparam e sumiram discretamente. Permaneceram apenas os amigos de Thur, seus irmãos e Tia Maude. A senhorita Melanie e Chay tinham levado os meninos mais cedo para casa de Tia Maude. Thur olhou para sua esposa. Estava parecendo nitidamente sonolenta. Ele se levantou e ofereceu a mão para ela. “Nós devemos partir, minha querida?”.
“Não, Arthur”, a tia interrompeu. “Você dois ficarão aqui. Vocês têm a casa para vocês; os empregados terminaram pela noite, mas voltarão pela manhã. Marcus emprestou a vocês a casa pela semana—de fato, até quando precisarem dela”.
“O quê?”, Thur procurou o conde. Além de uma saudação formal e um firme obrigado pelo suporte a sua esposa, Thur apenas tinha trocado uma ou duas palavras com seu irmão mais velho.
Nash disse, “Ele já foi. Ele é como nosso pai era; detesta cidades, prefere ficar em Alverleigh. Mas ele já fez os preparativos para você ficar. E acho que é uma excelente ideia. Já que vocês dois terão uma lua de mel”.
“O que faz você dizer que terão”, Tia Maude disse. “Eles estão em lua de mel”.
“Eu quis dizer sair em viagem”, Nash se corrigiu suavemente. “A princesa não vai querer deixar seu filho”.
“Não”, Lua disse. “Eu não deixarei Nicky para trás”.
“Tolice, você precisa de alguns dias a sós com seu novo marido”, Tia Maude declarou. “Isto é perfeito. Você está bem próxima de seu filho e ele está perfeitamente seguro comigo: a senhorita Melanie e o Sr. Suede estão com ele constantemente. Além disso, não há espaço para uma criança em uma lua de mel. As crianças normalmente vêm depois dela”.
“Mas—”
Mas não havia como parar a tia dele. “Eu trouxe as coisa de Lua para o quarto rosa no andar de cima, à esquerda, minha querida. A casa inteira foi redecorada desde que você esteve aqui pela última vez, então não haverá nada de desagradável para você, Arthur. Suas coisas estão aqui, também. Aceite isto educadamente, meu menino, e nós estamos indo”. Ela ficou de pé, beijou-o na bochecha, abraçou Lua calorosamente, e foi.
Thur engoliu suas objeções. Mais do que qualquer outra coisa, ele queria ficar a sós com sua noiva relutante e começar o processo de seduzi-la, mas podia perceber pelo rosto dela que ela estava desconfortável de ficar a sós com ele. Com a menor das desculpas ela voltaria para a casa da tia dele e não haveria nenhuma possibilidade de seduzi-la nessa situação. Ele apenas desejava não estar em Alverleigh House, a casa de seus primeiros anos solitários.
Ainda assim, ele poderia fazer memórias mais felizes…
Ele e Lua caminharam pelo corredor dianteiro de mãos dadas, e deram adeus aos seus felicitadores. Ele pegou na mão dela firmemente. Ele não podia deixá-la sair correndo e pular para a carruagem com eles. Ela estava tremendo novamente.
Logo antes de partir Nash disse a Thur, “devo notificar os oficiais responsáveis que a princesa é agora uma cidadã inglesa. Isso deve parar um pouco a corrida da documentação. Oh, e deixarei algumas sugestões hoje à noite de que vocês foram para a lua de mel em Brighton, e que a criança foi com vocês. Achei que uma segunda apresentação de evidência e argumentos do caso antes do tribunal verificar a apresentação original ajudasse o adiamento, pelo menos até a festa da Tia Maude”.
Thur anuiu com a cabeça. Era uma boa estratégia. Ele estendeu a mão para o irmão. “Eu quero te agradecer por tudo que fez pela minha esposa. Você é um bom homem, Nash, e eu te devo desculpas—”
“Tolices”. Nash segurou a mão dele. “Era coisa dos nossos pais, e isso está no nosso passado agora. Eu apenas queria que você desse uma chance a Marcus —”
“Não force, irmão. Eu tentarei colocar o meu passado para trás, mas ainda há Harry”.
Nash concordou com a cabeça. “Eu sei”.
Harry tinha deixado Alverleigh House cedo. Thur sabia exatamente o porquê. Era a cena de uma das maiores humilhações de Harry.
Mas não era hora de insistir no passado. Ele tinha um futuro a construir, com uma mulher que não queria fazer parte dele.
Ou pensava que não queria.

Lua achou o quarto rosa. Era um quarto bonito, espaçoso e pintado em sombras de creme e rosa. Um espelho grande e oval estava pendurado acima do consolo da lareira. As cortinas de cetim em rosa e creme escuro listradas forravam as janelas e grandes tapetes Persas espessos atapetavam o chão. Um fogo tinha sido aceso e a cama estava em prontidão.
As roupas novas dela tinham sido desempacotadas e penduradas no guarda-roupa e o resto de suas coisas estava em uma cômoda.
Lua se sentou na cama. Era maravilhosamente suave, com um colchão de pena espessa. Ela se debruçou para trás e ouviu algo crepitar e olhou para baixo. Era um tecido embrulhado em um pacote. A nota dizia simplesmente, “Com carinho, Mel”.
Intrigada, Lua ergueu. Era leve e macio.
Ela removeu a tira e desembrulhou o pacote. Era algo em seda branca. Ela o ergueu com os olhos arregalados. Era uma camisola, mas não como qualquer camisola que Lua já tivesse visto. Era bonita, com bordados delicados em torno do pescoço, mas tão fina e translúcida que ela podia ver seus dedos através do tecido.
Mel tinha dado isso a ela? Mel, a sensata e solteirona? Ela não podia acreditar.
Ela sorriu e embrulhou a camisola. Não era prática, mas ainda assim, era um presente adorável. E deveria ter custado uma fortuna. Ela a colocou de lado e se viu bocejando. Ela estava tão cansada.
Havia um sino ao lado da cama, ela o tocou e esperou. Depois de alguns minutos ela o puxou novamente. Ainda nada.
De repente Lua se lembrou da declaração da Lady Gosforth de que todos os empregados tinham sido dispensados pela noite. Eles realmente não tinham dito todos, não é? Não as empregadas também.
Ela precisava de uma empregada para tirar seu vestido de noiva. Era fechado até o final das costas com dezenas de minúsculos botões de pérola, e mesmo que ela pudesse tirá-los com beliscões, debaixo do vestido ela usava um colete especial que era firmemente atado na parte de trás. Ela nunca conseguiria desfazê-lo sozinha.
Ela abriu a porta e saiu para o corredor. “Com licença”, ela chamou.
“Sim?”, disse uma voz profunda detrás dela.
Lua quase morreu de susto. “Arthur, você me assustou”.
Ele parecia divertido. “Quem mais você esperava?”.
“Uma criada?”, ela disse esperançosamente.
Ele agitou a cabeça. “Precisa de ajuda para tirar o vestido, creio”.
Ela anuiu com a cabeça, e ele disse, “venha então”. E antes que ela percebesse o que ele estava fazendo, ele a guiou de volta à  alcova, girou-a e começou a soltar os botões.
Ela saltou para longe e o enfrentou. “O q—que você está fazendo?”.
“Soltando seus botões. Não há nenhuma empregada e você não conseguirá pregar o olho com esse vestido”.
“Mas você é homem”.
Ele deu um daqueles lentos e tortos sorrisos que tinham um efeito tão perturbador nela. “Eu sei”. Ele a girou novamente e disse, “Não seja tão pudica, são apenas botões e eu sou seu marido”.
Ele estava certo. Podia ser apenas um casamento no papel, mas ela era uma mulher madura e eles podiam ser racionais quanto a isso. Como ele tinha dito, eram apenas botões.
Não havia coisa como “apenas botões” ela decidiu dois minutos mais tarde. Ela podia sentir cada movimento que ele fazia enquanto os dedos longos soltavam cada botão minúsculo, um após o outro. Não havia nenhum som no quarto, apenas o crepitar do fogo e o som da respiração dele. Ela podia quase sentir a respiração dele em sua nuca, apesar de que ela estivesse sendo tola. Ele não estava de pé tão perto.
Ela olhou de relance através do espelho bonito pendurado acima da lareira. Ela podia vê-lo de perfil, franzindo a testa com concentração para os botões, o rosto parte na sombra, parte na luz.
As pontas do dedo dele deslizavam pela pele dela e ela se arrepiou.
“Está com frio?”.
“Um pouco”, ela mentiu. O calafrio não tinha nada a ver com frio e tudo a ver com o… toque. O toque dele.
“Então vamos para mais perto do fogo”.
Eles se moveram, e agora ela podia vê-lo no espelho mais claramente, enquanto ele se curvava para a tarefa de soltar os botões.
Ele foi descendo, e ela sentiu o vestido se soltando atrás. Ela os segurou nos seios para que não caísse de vez.
“Devo erguê-lo sobre a sua cabeça ou você prefere sair sobre ele?”.
“Nenhum dos dois, obrigada. Eu farei isso mais tarde. Se você puder acabar de soltar os prendedores e as rendas agora…”
Ela viu a boca dele se abrir no sorriso lento que ela achava tão irresistível, mas ele não disse nada e foi trabalhar no colete.
“Eu não sei por que vocês mulheres fazem isso consigo mesmas”, ele murmurou. “Deve ser diabolicamente desconfortável”.
“Não é”, ela o assegurou. “Foi feito para mim, especialmente para vestir com o vestido de gala, em especial com meu vestido de noiva”.
“Você estava bonita nele”, ele disse e encontrou o olhar dela através do espelho. Ela percebeu então que ele sabia desde o princípio que ela o estava observando.
“Você fica ainda mais bonita sem ele”, ele murmurou e o soltou. Sem tirar os olhos dos dela no espelho, ele desceu um dedo longa e lentamente pela coluna dela, da nuca até embaixo nas costas. Embora ela ainda estivesse usando sua camisa ela arqueou contra o dedo dele como se tivesse sido pele contra pele.
Ela depressa andou para longe e girou para enfrentá-lo, segurando o vestido de noiva como um escudo para sua proteção. “Obrigada por sua ajuda”, ela disse a ele. “Conseguirei fazer sozinha agora”.
Ela não podia ver a expressão nos olhos dele, eles estavam na sombra. Por um momento ela pensou que ele não iria se mover, entretanto ele simplesmente se curvou e disse, “devo deixá-la sozinha então”.
A porta se fechou atrás dele e ela deu um suspiro enorme de alívio. Pelo menos ela disse a si mesma que era de alívio. Ela se sentia um pouco… vazia.
Ela deixou o vestido e o colete caírem, e saiu sobre eles, então os ergueu e estendeu o vestido cuidadosamente sobre a cadeira. Ela se alongou e deu umas esfregadas vivas nas costelas. O colete não era desconfortável mas era apertado, e era ótimo ficar livre da restrição.
Havia um pouco de água morna em um jarro sobre uma mesa pequena e ela a usou para se limpar rapidamente com um washcloth e sabão na frente do fogo. Ela teria preferido um banho, mas sem empregados na casa, não seria possível.
Ela examinou a camisola sobre a cômoda. Ela tinha comprado vários em suas expedições às compras, mas nenhuma delas estava lá. Ela foi até as gavetas duas vezes. Não, quem quer que tivesse guardado as coisas dela, tinha se esquecido das camisolas.
Ela teria que dormir em seu vestidinho mais solto, decidiu. Seu olhar foi até a camisola de seda que Mel tinha dado a ela. Era escandalosamente fina, mas a cama era suave e morna e, afinal, ela deveria usá-la como um presente espiritual. Ela escapou de seu vestidinho e entrou na camisola. Ela escorregou suavemente pelo corpo, como um fluxo fresco de água.
A sensação adorável. Ela olhou de relance para seu reflexo no espelho. Céus. Ela parecia quase completamente nua. Ela podia ver a mancha escura no ápice de suas coxas. Ela se encarou novamente. Parecia que seus seios tinham tamanhos ligeiramente diferentes. Com certeza não. Ela piscou e sim, eles tinham, não muito, mas definitivamente havia uma diferença. Ela olhou para eles. Como nunca tinha sabido? Ou isso tinha acontecido recentemente?
Ela nunca realmente se olhara nua em um espelho. No palácio o único espelho no qual ela poderia se olhar ficava no quarto de vestir, e lá ela sempre tinha ao menos uma empregada com ela, vestindo-a e despindo-a. E embora ela pudesse ter se olhado o quanto quisesse, era uma coisa embaraçosa de se fazer com alguém assistindo.
Agora ela estava só e livre para se olhar, e ela se olhou, girando, virando o pescoço para se ver por detrás. Ela estava um pouco gordinha, decidiu, especialmente seu traseiro. Não parecera tão grande no vestido, porém. Talvez fosse a camisola. Experimentalmente ela ergueu a camisola e olhou para o reflexo de suas nádegas nuas. Definitivamente gorda, ela pensou. Certamente não “bonita” como ele tinha dito. Ela suspirou. Número de elogio galante oitenta e sete.
De repente houve uma batida na porta e ela saltou com o susto, soltando a camisola de volta com culpa e se cobriu com os braços.
“Quem é?”.
“É Arthur, claro”, disse uma voz familiar, profunda.
Claro. Não havia mais ninguém na casa. “O que você quer?”, ela gritou.
Para seu horror, a porta foi aberta. Ela pegou o vestido na cadeira e o usou para se cobrir decentemente. “O que você pensa que está fazendo?”, ela exigiu saber sem ar.
“Vim para a cama”, ele disse. Ele removeu seu casaco, jaleco e o lenço que tinha amarrado em volta do pescoço. O topo de sua camisa estava aberto.
“O quê? Aqui?”.
“Sim, aqui”. Ele caminhou através do quarto até o guarda-roupa grande no outro lado e abriu uma porta, dizendo, “minhas roupas estão aqui, você não notou?”.
Ela não tinha. “Mas as minhas roupas estão aqui”, ela disse a ele.
“Provavelmente por que há dois guarda-roupas e duas cômodas”, ele sugeriu. Ele se sentou em uma cadeira baixa e começou a remover seus sapatos e meias.
“Você quer dizer que nós dois vamos dormir aqui?”.
“Exatamente”. Ele se levantou e não se moveu.
“Não”, ela disse a ele, perguntando-se o que ele estava fazendo. Ele não estava olhando fixamente para ela, mas para algo acima de seu ombro.
Ele sorriu. “Simplesmente linda”, ele murmurou.
Ela olhou de relance acima de seu ombro mas tudo que pôde ver foi o fogo e o olhar dele no espelho. Então ela percebeu. O espelho! Ele podia ver as costas dela pelo espelho. Na camisola transparente.
“Pare com isto!”.
“Não posso”, ele disse simplesmente.
Ela começou a girar e então percebeu que de qualquer modo estaria exposta, então foi até a cama e com alguma dificuldade deslizou entre as cobertas. Parando com elas em seu queixo enquanto ordenava que ele partisse.
“Não posso”, ele disse. “Nós precisamos fazer este casamento legal”.
“É legal. Você disse que Nash tirou a licença”.
“Sim, toda essa parte é legal e honesta, mas agora nós temos que consumá-lo”.
“Consumar? Mas você disse—”
“Sim?”, a sobrancelha dele se ergueu zombeteiramente.
“Você disse que era um casamento no papel. Uma estratégia. Uma—uma manobra de xadrez”.
Ele ergueu ambas as sobrancelhas. “Você quer jogar xadrez? Agora?”.
“Você sabe o que eu quero dizer”.
“Eu sei”. O olhar levemente provocador enfraqueceu. “Foi como eu disse que seria, mas o conde vai tentar de tudo, estou certo, e isto é um furo que ele não vai deixar de verificar. Se eu dormisse em outro quarto e você fosse obrigada a jurar mais tarde se dormira ou não comigo na nossa noite de núpcias, você poderia mentir convincentemente?”.
Ela mordeu o lábio, sabia que ele estava certo. Ela não era uma mentirosa convincente. “Então nós devemos consumar este casamento?”, ela sussurrou.
Ele suspirou. “Não se você não quiser. Se nós dormirmos junto então você poderá dizer a qualquer juiz ou oficial de governo que é impertinente inquirir isto, e sim, nós dormimos junto. Eles farão a suposição”.
Lua considerou cuidadosamente a situação. Ela podia fazer isto. Mas eles teriam que compartilhar uma cama. Ela engoliu em seco.
A única pessoa com a qual ela já tinha compartilhado a cama era o filho e isso apenas depois que eles tinham fugido de Zindaria. Rupert nunca ficara com ela depois de suas visitas matrimoniais mensais. Ele preferia dormir em seus próprios aposentos.
Ela inspecionou a cama. Era grande, mais que o suficiente para duas pessoas.
“Certo”, ela disse de má vontade. “Mas só para assegurar a legalidade deste casamento. E somente se você me prometer que não se jogará sobre mim”.
Ele deu um olhar chocado. “Me jogar? Eu nunca me jogo. Tenho muito mais sofisticação do que isto”. Ele tirou a camisa, e então começou a soltar os botões da cintura.
“O que você está fazendo?”, ela se sentiu tão tensa quanto uma corda de violino.
“Me despindo. Não vou dormir de calça comprida”.
“Você está usando calção?”, ela exigiu.
“Sim”.
“Então, deixe-os”, ela ordenou. Ela se ajeitou e fechou os olhos com força. Ela conseguiria passar por isto. Eram apenas algumas horas, nada mais. Era apenas dormir, nada mais. E isso deixaria Nicky a salvo. Tudo o que ela tinha que fazer era se manter protegida de seu marido. E o único meio de fazer isto era mantê-lo à distância.
Ela podia ouvi-lo remover a calça comprida. Ela olhou furtivamente e o viu andando em torno do quarto com nada além de um calção de algodão leve, apagando as velas e desligando as luminárias.
Ele se curvou e pôs um pouco mais de carvão no fogo. Luzes giravam em seu corpo musculoso variando entre bronze, dourado e ébano. Ele era magro, firme e bonito.
Tudo que ela tinha que fazer era mantê-lo à distância.
A cama rangeu quando ele deslizou nela ao lado dela.
O fogo suavemente silvou. As sombras das chamas dançavam no teto. Lua estava deitada de costas para ele, dura como uma tábua, os braços cruzados sobre os seios, desejando estar vestindo a camisola de flanela rosa espessa que a Sra. Barrow tinha emprestado a ela em sua primeira noite.
“Foi um casamento muito bom, não foi?”, ele disse puxando assunto.
“Sim. Boa noite”, ela disse firmemente. Ela não queria conversar com ele, não gostava disto, compartilhar uma cama com o fogo dançando. Era muito íntimo.
“Você parecia um pouco chateada com o número de pessoas na recepção”.
“Sim, fiquei. Mas Nash explicou posteriormente. Eu não sei por que ninguém me disse antes. Mas agora não é hora de discutir essas coisas. Eu gostaria de dormir, por favor. Boa noite”.
“Sim, boa noite. Tenha doces sonhos, Sra. Aguiar”.
Os olhos de Lua se abriram de repente. Sra. Aguiar. Ninguém a tinha chamado assim antes. No café da manhã do casamento todo mundo a tinha tratado como Princesa. Sra. Aguiar. Ela gostou do som. Era ordinário. Normal. Bom.
Ela fechou os olhos e tentou dormir. Durma. Ela quase bufou em voz alta. Era como deitar em uma jaula de um tigre para um cochilo.
Depois de um momento ele disse, “eu pensei que a Senhorita Melanie parecia inesperadamente bonita naquele vestido azul, não é?”.
“Sim. Sim, ela estava”. Lua ficou contente com o comentário. Ela tinha conversado com Mel para que ela aceitasse a cor e ele realmente tinha ficado bom nela. Ela começou a pensar em Mel. “Sabe, antes de eu vê-la novamente—antes de retornar à Inglaterra quero dizer—pensava que ela era bem velha. Mas quando nos encontramos depois de nove anos percebi que na época em que ela me educava, deveria ter a mesma idade que eu tenho agora. Pensava que ela era velha, ou pelo menos de meia-idade, e ainda assim, ela deve ter mais ou menos trinta e cinco anos agora”. Ela cessou bruscamente, percebendo que estava conversando quando deveria manter distância, física e metaforicamente. “Vou dormir agora”, ela anunciou em uma voz determinada.
Ela se deitou escutando a respiração dele, escutando os sons baixos do fogo, até o estrondo distante de uma carroça batendo sobre os paralelepípedos, um cachorro latindo.
Ele ziguezagueou para ficar mais confortável e ela sentiu algo deslizar nela.
“Cuidado com as suas mãos!”, ela falou de repente.
“Por quê?”, a voz dele era pura, jovial, uma provocação suave.
“Eu não quero que elas fiquem vagando”. Ela podia ver a cabeça dele no travesseiro, voltada na direção dela, assistindo-a. Os olhos cintilavam com a luz do fogo.
“Não se preocupe”, ele disse com um sorriso que teria derretido os ossos dela se ela não estivesse tão determinada a resistir. “Minhas mãos podem vagar… mas nunca se perdem”.
Ela engoliu em seco.
“Eu sempre sei exatamente onde elas estão…”
Ela fechou os olhos com força e desejou que as orelhas pudessem se fechar sob sua vontade, também.
“E elas sempre acham seu caminho para casa no fim”, ele terminou em um tom aveludado.
Ela se arrepiou.
“Você está com frio”, ele disse.
“Não, eu não—o que você está fazendo?”, terminou mais como um chiado do que como um protesto indignado.
“Aquecendo você”. Ele se virou um pouco de lado e tirou a coberta dela. Ela tentou lutar mas os braços dele simplesmente se envolveram ao redor dela e ela se achou firme dentro dele, todo o comprimento de seu corpo, suas costas contra o peito dele, seus membros dobrados entre os dele e uma parte no inferior do corpo dele estava apertada contra ela e ela não iria pensar em qual parte era.
 “Não estou com frio”.
“Você estava estremecendo, não é nenhuma maravilha, com essa roupa completamente deliciosa que você não está, exatamente, usando. Você a vestiu para mim?”.
“Não. Eu apenas o vesti porque não havia nada mais”. E ela estava estremecendo porque ele estava na cama dela fazendo-a sentir coisas. Coisas que ela não queria sentir.
“Hm-hmm”, ele disse como se não acreditasse uma palavra. “Essa é uma boa descrição para a roupa, ‘nada mais’. Não completamente nua, nem bastante vestida. Não que eu tenha qualquer objeção, longe disto. O que eu vi foi atordoante. Você terá que me mostrar corretamente um dia”.
“Eu não irei”.
“Parece seda. É seda? Dizem que a seda dever ser fina o suficiente para passar por uma aliança de casamento. Você acha que ela passaria pelo seu anel de casamento? Você poderia tirá-la e tentar. Não fará nenhuma diferença para mim”.
“Pare com isto. Eu não tenho nenhuma intenção de tirá-la. Você disse que este casamento era para ser—”, ela não conseguia pensar na palavra. “—como xadrez!”, ela silvou.
“Bom jogo, xadrez”, ele murmurou na orelha dela. A respiração morna dele deslizava na pele dela.
“Solte-me”. Ela tentou se afastar.
“Relaxe, docinho”, ele disse a ela. “Não vou fazer nada. Mas você estava deitada como um cadáver com os braços cruzados sobre os seios e estremecendo, você não vai conseguir pregar o olho desse jeito”.
“Você acha que eu dormirei assim?”, ela exigiu.
“Talvez não, mas será muito mais confortável do que se deitar como um cadáver”. Ele a apertou. “Isto não é bom?”.
“Não”, ela mentiu. “Estou muito desconfortável”.
Isso foi um engano, ele usou isto como desculpa para se mover para mais perto e puxou-a mais firmemente contra a curva de seu corpo. “Agora, durma”.
Ela estava deitada lá firme e zangada, sabendo que nunca dormiria, não com ele na cama fazendo-a se sentir tão quente, cheia de emoções picantes, desejos e nervosa.
Se era assim como ele começava um casamento, ela não teria nenhuma chance de proteger seu coração. Ele era esse tipo de homem. Ela duvidava que qualquer mulher pudesse resistir.
Mas não era sério para ele. Ele vivia o momento—ele tinha dito isto uma vez, tinha dito a ela que era o hábito de um soldado, viver o momento enquanto ainda houvesse algum sopro de vida.
Ela não conseguia viver assim. Não mais. Ela não levava as coisas sem seriedade como ele fazia.
Ele a achou no topo de um precipício e sem mais pensar, como se estivesse achado um gato perdido, pegou-a junto com Nicky e os levou para a casa dele, protegeu-os e até se casou com ela, sem vacilar, e aparentemente sem as preocupações sem fim que vinham com cada decisão que ela tomava.
Então aqui estava ele, e aqui estava ela na cama com ele, os braços poderosos dele evolvendo-a, o calor dele banhando-a. E como sempre, ele estava vivendo o momento—e ela—estava irritada pensando em consequências imaginárias.
Ele a desejava—a evidência firme e direta estava pressionando insistentemente seu corpo—e ela sabia que ele poderia simplesmente tomá-la se quisesse. Ele era muito forte e eles estavam sozinhos, e legalmente ele tinha direito. E é claro que ele queria uma recompensa por todos seus problemas. Ele merecia.
Ainda assim ele não tinha feito nenhuma tentativa para tomá-la, ou mesmo pressioná-la para que mudasse de ideia. Ele era um homem de palavra. Ela respeitava isto, ainda que agora mesmo achasse isso irritante e inconveniente.
Ele não fez nenhum segredo de que a desejava desde o princípio. Ele tinha sido bastante aberto e descarado, desde o primeiro dia quando tinha sugerido a ela que se tornasse sua amante.
Provavelmente uma vez que ele dormisse com ela, perderia interesse. Isso era o que ela desejava. Era.
Ela umedeceu os lábios, pensando sobre isto. Desde que ela o tinha encontrado não havia conseguido parar de imaginar como seria com ele. Isso não queria dizer nada, ela se lembrou. Era simplesmente uma questão de curiosidade feminina normal.
O poder relaxado e firme do corpo grande dele contra o dela era muito tentador. Ela adoraria explorá-lo. Ela estava ciente de todos os lugares que o corpo dele tocava-a, onde havia pele com pele, e onde as peles estavam separadas pelo mero toque da seda fina.
A respiração dele era profunda e igual, mas ele não estava adormecido, ela estava certa. Ele estava muito despertado para dormir. Assim como ela.
Eles fizeram um casamento no papel, uma manobra de xadrez: ele iria embora um dia. Assim que ela e Nicky estivessem protegidos do Conde Anton o compromisso deles estaria terminado. Então ela estaria só.
Para o resto de sua vida.
Se ela não fizesse isto agora, sempre se perguntaria do que sentiria falta.
Rupert sempre tinha sido muito previsível. No início ela tinha apreciado isto, mas uma vez que percebeu que tinha feito a si mesma de tola, tudo se tornou um ritual, não era desagradável, mas não tinha o calor que ela tinha imaginado acompanhar a encenação da primeira parte de seu casamento.
Com Arthur não seria um ritual. Ele não era de todo previsível, não com ela. Mesmo quando ele estava apenas flertando com ela, ele a despertava com as provocantes e excitantes imagens que colocava na mente dela. Mesmo os beijos dele deixavam-na no limite. Ele era quente, excitante… e apavorante.
Se ela o deixasse possuí-la, as únicas consequências seriam em seu coração. Ela era estéril. Algo deveria ter acontecido a ela quando Nicky nascera, porque apesar das visitas mensais regulares de Rupert, ela nunca mais tinha engravidado. Não que ela se importasse se Arthur desse a ela uma criança. Ela o adoraria e amaria como uma pequena parte dele.
Oh Deus, até considerar isto era brincar com fogo. Mas se ela não o fizesse, passaria o resto da vida se lamentando. Então, sim, ela iria deixá-lo possuí-la.
Mas como? Ela não podia apenas perguntar.
Ela fez um pequeno movimento experimental, movendo seu traseiro contra o membro desperto. Ele ficou tenso. Isso era promissor. Ela se moveu novamente.
“Fique quieta, ok?”, ele murmurou aumentando o aperto nela.
Como resposta, ela se moveu um pouco mais, roçando seu traseiro provocativamente de um lado para outro contra a excitação dele. Ela manteve os olhos fechados, fingindo estar meio adormecida e desavisada de suas ações.
“Se você não ficar quieta, não serei responsável pelas consequências”, ele rosnou.
Ela se moveu novamente e esperou.
“Você está fazendo isto de propósito, não é?”, ele murmurou.
Ela não respondeu.
Sem aviso prévio ele a virou na cama e a olhou em cheio no rosto. “Eu te dei a minha palavra. Se você mudasse de ideia, precisaria dizer”.
Ela não conseguia se forçar a falar. Não diretamente. Não alto. Depois de um momento ela disse, “você disse que eu minto muito mal”.
Ele franziu a testa com a impertinência aparente na observação. “Sim, você mente”.
“Então se eu me atrapalhar—com o juiz ou com o homem do governo ou com alguém que pergunte?”.
“Atrapalhar com o quê?”.
“A manobra de xadrez. Dizer que nós consumamos o casamento quando na verdade não fizemos”.
Os olhos dele estavam fixos nela. “O que você está dizendo?”.
Ela olhou fixamente para um ponto acima do ombro dele, respirou fundo e disse, “eu acho que talvez devêssemos consumá-lo”.
Uma sobrancelha escura dele se ergueu. “Por causa da manobra de xadrez?”.
“Sim”. Ela estava em terreno mais firme agora. Era apenas uma questão de legalidades, não tinha ligação com as necessidades dela ou como ele a fazia se sentir com desejo e cheia de ideias picantes. Ela estava simplesmente se oferecendo para fazer sua parte. Imparcialmente.
“Porque você não gostaria de mentir”.
“Isso mesmo”.
“Então, Princesa, você está me dizendo que deseja consumar o casamento?”, ele perguntou suavemente.
Ela engoliu em seco e anuiu com a cabeça. “Sim, por favor. Se você não se importar”.
“Oh, eu não me importo”.
Ela fechou os olhos e esperou. Nada aconteceu. Ele não se moveu um único músculo. Ela sabia; estava dolorosamente ciente de cada um deles.
Ela abriu os olhos e o encontrou observando-a com uma expressão enigmática. “Então?”, ela exigiu.

Ele sorriu lenta e provocativamente do modo que a fazia se derreter. “Você começa”.

Cap 15 "Second Chance"